Estive sem inspiração ácida suficiente para iniciar outra leva de posts da série "No dos outros é refresco" e decidi contar algo sobre mim. Afinal, aposto que deve ser mais legal ler zicas sobre mim do que sobre os outros que foram sacaneados por mim.
Enfim, hoje contarei algo sobre um lugar que fui há uns 2 anos atrás que tinha um nome não muito convidativo: a DANGER.
Ao ter ouvido o nome pela primeira vez eu já deveria ter me ligado que não se tratava de um bom lugar. Mas como não saía de balada há muito tempo com o pessoal da época de escola, achei que não deveria ligar muito pro nome da balada.
Aconteceu tudo muito rápido. Meu amigo sem noção me ligou durante a tarde e disse algo amistoso:
- Meu, tem uma balada muito legal que eu fui semana passada, vamo aí! Chama seu namorado também! A música é boa, o pessoal da balada é gente boa e pra você ter idéia semana passada o gordão conseguiu pegar uma mina. Tudo bem que era uma véia, mas ainda assim ele desencalhou. Temos que ir pra zoar ele.
Pausa aqui para explicar que o gordão é o amigo virgem do grupo. E ele tinha 20 anos na época. Virgem e encalhado. E de fato, se o gordão ficasse com uma velha na balada, eu não poderia perder a oportunidade de presenciar a cena e zoá-lo até a morte.
Prosseguindo:
Chegou a noite, marcamos de nos encontrar próximo ao metrô porque lá conseguiríamos uma carona. E eis que chega um Fiat Tipo bizarro com 4 pessoas dentro. Estavamos em 3 esperando a carona, então seriam 7 pessoas que tentariam entrar no Fiat. Terminou que tivemos que ir amontoados e ouvindo os protestos bizarros do meu amigo:
- "Oh meu deus, o que é isso na minha bunda???"
- "É a carteira que tá no meu bolso!!!"
- "E agora, o que é isso?"
- "Sei lá, já tirei a carteira…"
Chegamos no Centro, próximo a Anhangabaú/República. Vale lembrar que não é o lugar mais convidativo de se passear durante a noite, visto a quantidade de nóias, putas e travecos que perambulam por ali. O cara que dirigia parou numa das esquinas e um dos que estavam no carro (e até o momento eu não conhecia), o Orelha, abriu o vidro, colocou a cabeça pra fora e chamou uma espécie de traveco-alien para pedir uma informação: "Ae linda (!!!) você tem Flyer pra Danger?" e o traveco apontou bichosamente um outro cara mais a frente. Naquele momento eu tive medo. Pavor. Terror. Putaquepariu estavamos pedindo flyers para TRAVECOS? Já vi que ia dar merda…
Comecei a reclamar e disseram pra eu não me preocupar, que era uma boate GLS mas ninguém mexia com ninguém. Ok, pensei, me fodi. Isso foi seguido de minutos infinitos de alopração ao Gordão e ao meu outro amigo, que eu acusava de terem ficado com travecos na balada.
O próximo cara que o traveco tinha apontado nos deu 423432 flyers e seguimos para o local.
A frente da balada era uma portinha com um luminoso escrito "Danger", passamos de carro rapidamente e vi que tinha uma fila imensa para entrar. Descemos quase em frente e fomos para a fila. Aí que eu comecei a notar: o lugar era lotado de travecos. Muitos travecos. Travecos e gays, apenas.
Nada contra os gays, por mim cada um faz o que quer com a vida, mas de fato uma balada gay não é algo que eu gostaria de frequentar. Como já estava lá, não tinha como fugir e comecei a resmungar. O tal Orelha começou a xavecar os travecos na fila e depois virava para nós e dizia que "era zoeira". Não contente em "zoar" os travecos, ele chamou um outro cara que tava no carro e que até o momento eu também não conhecia, para zoar junto. O tal Claudião ficou meio irritado com o fato de xavecar travecos, e mudou de assunto dizendo que era macho, que era da Mancha Verde, de uma facção da torcida organizada chamada "Hamas". Apesar de hoje o Hamas ser famoso, há uns 2 anos atrás não era tanto. Essa informação será valiosa algumas linhas a frente, no texto.
Entramos no lugar e a música era um tecno padrão com uma quantidade infinita de bizarrices. Realmente tinha velhas por lá, só restava saber se eram travecos. Se fossem, pobre gordão, acho que ele deu seu primeiro beijo num travesti.
Meus amigos começaram a dançar e eu me limitei a dançar com meu namorado enquanto reclamávamos e conversavamos. A galera começou a zoar, o amigo que me convidou sempre reclamando que ia ficar sozinho e que "tinha muito bicha" na casa aquela noite. Não contente em reclamar, eventualmente ele gritava coros pedindo mulher na casa. Imaginei que ele levaria uma surra dos viados e fingi que não o conhecia.
O tempo lá era interminável, eu não via a hora de ir embora e estava ficando abismada com o fato de meus amigos estarem dançando e se divertindo muito até aquele momento. Parecia uma grande pegadinha onde todos de uma hora pra outra decidem fingir que são viados. Assustador.
Para piorar minha situação, um tempo depois surgiram 43432 Gogo boys dançando pra todo lado, as bichas tiraram a camisa e meus amigos, incrívelmente, sumiram na pista e nos deixaram no canto. Eu não podia olhar para nenhum lugar, afinal, se olhasse, certamente ia ter que ouvir uma crise de ciúmes abrupta. Logo, eu me resumi a dançar e olhar para o chão, porque quanto mais eu fugia, mais nego semi nú aparecia.
Ainda não tinha chegado nem duas da matina (balada chata passa em slow motion) quando avistei os dois caras bizarros que estavam no carro – e o tal "macho" da Mancha Verde hahaha – dançando como bichas loucas no meio da viadagem, pareciam funkeiras no cio.
Quando finalmente encontrei meus amigos, implorei humildemente para ir embora daquele INFERNO mas eles me avisaram que teria um "show" no final, que ia começar logo, pra eu esperar. Pronto, agora além de tudo, ia ter que ver um "show" pra piorar.
Como já tive uma péssima experiência envolvendo sair da balada de madrugada, usar camisa de bandas de rock e skinheads irritados com gostos musicais alheios, decidi que era menos pior ficar naquele lugar do que sair e correr o risco de levar uma surra por gostar de The Smiths.
Antes de começar o tal "show" eu me concentrei em notar as bizarrices. Vi por exemplo, um negão mano, estilo 50 cent, que se eu visse na rua atravessava com medo de assalto passando com duas mãos surgindo de trás de seu ombro. Atrás, fazendo trenzinho, vinha um velho estilo baiano risca-faca, encoxando o gangsta. OMFG. Outra bizarrice foi ver um velho de seus 70 anos de idade dançando loucamente, cantando hits da Xuxa com um colar de plumas no pescoço. Além do não menos bizarro trio de viados que andava de coleiras interligadas por correntes.
Gaygsta: viadagem na humildade, tá ligado?
Para minha felicidade – ou não – o show começou e logo depois eu iria embora, FINALMENTE. Para meu desespero, era um show de desfile de travestis no palco, onde eles andavam como modelos até o meio da platéia no palco e voltavam, mostrando seus modelitos e perucas estranhas. O Traveco Fashion Week rolava e as pessoas aplaudiam e gritavam empolgadas, quando aconteceu algo bom naquela noite horrível:
Morri!
O mais importante dos travecos apareceu para desfilar, andou firmemente pelo palco até o meio da platéia, deu aquela viradinha para voltar e… CAIU! Se espatifou, quebrou o salto e caiu de cara no chão. Aquela cena até hoje passa em slow motion na minha cabeça. Naquele dia sonhei em ter uma câmera acoplada no meu olho para poder filmar aquilo. Ri demais, ainda mais pela pompa toda do traveco seguida pela queda com aquelas plumas e rendas voando pro alto e depois ele levantando com a peruca toda torta. Chorei de rir, se eu fosse velha, teria mijado de tanto rir.
Infelizmente o resto da platéia não tinha senso de humor e eu recebi centenas de olhares dardejantes e reclamações sobre meu comportamento desrespeitoso com a queda do traveco.
Como tudo que está ruim pode piorar, na hora de ir embora sentei na escadaria da saída para esperar a carona e senti algo… molhado no chão. Vi que era um amontoado de vômitos que quase receberam mais um para coleção. Desgraça pouca é bobagem.
Com isso tudo aprendi 3 coisas: a) Nunca ir para baladas com nomes toscos. b) Se for, sempre tenha dinheiro para voltar de táxi ou de helicóptero e c) Travecos não tem senso de humor.